Chevron errou ao demorar um dia para inspecionar poço, diz ANP

André Barrocal, da Carta Maior


A petroleira norte-americana Chevron errou ao não inspecionar sua sonda e o poço que ela perfurava tão logo soube que havia uma mancha de óleo nas imediações e ao deixar para verificar só no dia seguinte. A demora é inexplicável pois, na véspera da descoberta da mancha, a perfuração tinha apresentado um problema inesperado, e esse problema já era de conhecimento da empresa. Se a Chevron agisse diferente, um dia de derramento de óleo teria sido evitado.
A avaliação é do chefe de segurança operacional da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Rafael Moura, que, nesta quarta-feira (30), participou na Câmara dos Deputados de mais uma audiência pública sobre o desastre ambiental protagonizado pela multinacional.
Depois da audiência, a reportagem perguntou a Moura sobre as explicações dadas pela Chevron na véspera, em depoimento no Senado, sobre como lidou com o vazamento nas primeiras horas após o aparecimento de uma mancha de óleo no mar.
Aos senadores, o superintendente de meio ambiente da Chevron, Luiz Pimenta, mostrou que, quando a mancha foi descoberta, em 8 de novembro, a empresa achou que era problema da Petrobras, primeira a avistar o óleo. A Chevron tivera uma situação inesperada na perfuração do poço no dia 7 mas só decidiu inspecioná-lo no dia 9. “Não sei se devia inspecionar no dia 7, mas no dia 8 com certeza”, disse Moura à Carta Maior.
A demora da Chevron para associar o problema com a perfuração ao vazamento configura despreparo ou incompetência. Caracterizá-la responde a uma das dúvidas mais importantes sobre o derramento, a ponto a de seu supervisor de meio ambiente, Luiz Pimenta, ter tentado, perante deputados, mudar a versão apresentada ao senadores, para camuflar a lentidão.
Aos senadores, Pimenta havia dito que, no dia 8, a Chevron participara da busca da origem da mancha “em apoio à Petrobras”, pois a mancha estava mais perto das instalações da Petrobras do que das suas próprias. Que no dia 8 manteve uma equipe de “stand by”. E que foi só no dia 9, depois da inspeção da sonda que constatou o vazamento, que a empresa “assumiu a resposta”.
Aos deputados, Pimenta disse coisa diferente. Que a equipe de segurança estava “de prontidão” desde o dia 8. E que a empresa “deu combate” à mancha “independentemente de saber de quem era”.
Kick: origem de tudo
Segundo Moura, já está claro que a origem do derramento foi o evento inesperado do dia 7, chamado tecnicamente de “kick” – um espalhamento de óleo durante uma perfuração. Falta saber ao certo por que o “kick” ocorreu.
Para a ANP, há fortes indícios de que foi por obra da empresa, não da natureza, como a Chevron diz. “Um kick não acontece sozinho. E a geologia da Bacia de Campos [local do derramento] já é conhecida há 40 anos”, afirmou Moura.
Em pelo menos duas ocasiões públicas, a Chevron usou a linha de defesa “ foi culpa da natureza”. Disse isso no dia 10, por meio de sua porta-voz no Brasil, Heloísa Marcondes, em pronunciamento à imprensa. E o reafirmou pela boca do presidente da empresa para América Latina e África, Ali Moshiri, em entrevista a jornalistas na segunda (28), após reunião no ministério de Minas e Energia.
Mas se a culpa é da natureza, que teria pregado uma peça com um “kick” inesperado, por que o presidente da empresa no Brasil, George Buck, dissera em audiência pública na Câmara dos Deputados que pedia “desculpas” ao povo brasileiro? E por que o superintendente de meio ambiente disse nesta quarta (30) que a empresa está “envergonhada”?
Uma primeira conclusão sobre as causas e responsabilidades pelo desastre deverá ser conhecida até o dia 16 de dezembro, quando a Polícia Federal (PF) deve concluir inquérito. A posição da ANP será manifestada até o dia 7 de fevereiro, dois meses depois de a Chevron encaminhar um relatório com sua versão dos acontecimentos.
(Carta Maior)

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